terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Confessions of two girls - Capítulo 4
Capítulo 4
Kitty Smith
- Calma Star, calma.
A égua castanha estava muito exaltada. A Star é a minha égua desde os meus 15 anos, e embora só a tenha há 3 anos já me afeiçoei imenso a ela. É, de certeza absoluta, a égua mais bonita da herdade.
- Não podes estar assim, senão como é que vou dar aula? Vá, acalma-te.
Ela pareceu acalmar-se um bocadinho. Suspirei de alívio.
- A falar com uma égua? – perguntou uma voz agora conhecida. Era Mia. Com os relinchos da Star não a tinha ouvido a entrar.
- Sim, tens algum problema? São animais, e compreendem-te.
- Ei, eu não disse…
- Quando tiveres o teu cavalo percebes.
- Kitty, não te exaltes! Mas é bom saber que te ando a ensinar alguma coisa de jeito.
- Ai sim? O quê? – perguntei, não percebendo onde ela queria chegar.
- Já sabes discutir melhor.
- Parva.
- És tu.
- Não sabes o que dizes.
- Sei sim.
Lancei-lhe um olhar fulminante, mas ela ficou na mesma.
- O que é que estás aqui a fazer?
- A conhecer a herdade. Sabes que aquela de me acordares às nove da manhã não teve piada nenhuma, não sabes?
- Estás a falar de quê? – perguntei, fazendo-me desentendida. – Às nove já cá estava.
- Deixaste o cortinado aberto.
- Desculpa, não sabia que eras sensível à luz.
- Não sejas idiota, sim? Honestamente, não sei como é que o Justin te suporta. Ele até pareceu um bom rapaz.
- Não voltes a falar do meu namorado outra vez.
- Isso é uma ameaça? – perguntou ela, com um ar desafiador.
- Entende como quiseres. – respondi, retribuindo o olhar.
- Minha querida, nem sabes com quem é que te estás a meter.
- Veremos. Agora, se não te importas, tenho uma aula para dar.
- Boa sorte. – desejou ela.
- Para quê?
- Para o miúdo a quem vais dar aula. Coitado.
- É uma miúda. – corrigi.
- Tanto faz.
Virei-lhe costas e segui o meu caminho. Que rapariga mais irritante! Ouvi-a a rir-se, mas ignorei e segui em frente. O Stéphane já estava à minha espera, e a aula fez bem para desanuviar.
- Agora vamos experimentar um leve trote, está bem?
Ele assentiu e começou a trotar. Ficámos mais uns minutos a fazer aquele tipo de exercícios e passámos para coisas mais complicadas, como ele andar sozinho, sem eu a puxar a corda.
A aula passou mais rápido do que eu queria. Não me apetecia nada estar sem nada para fazer, especialmente porque o Justin tinha um exame, logo não ia poder estar comigo. Foi então que avistei o meu salvador: o Tyler.
- Tyler! – chamei, satisfeita.
- Olá. Nunca te vi tão feliz por me veres.
- Estava a ver que ia apanhar uma seca.
- Não sejas assim Kittyzinha. Agora tens a tua nova maninha.
- A minha nova maninha… Olha, perdeste a oportunidade de a conhecer por uma hora!
- Que azar…
- Tyler, podes parar com isso? – pedi, de repente.
- Com o quê? – perguntou ele, confuso.
- Pára de mexer no raio da ferida. Sabes como isso é irritante?
- O quê?
- Sim, estás sempre a mexer nessa ferida que fizeste ontem. A sério, começa a irritar.
- Não sejas tão chata, Kitty.
- Chata? – perguntei, fingindo-me indignada.
- Sim, chata! – respondeu ele, começando a fazer-me cócegas.
- Parvo! – critiquei-o, tentando libertar-me. – A sério Tyler, tenho de me ir embora.
- Pronto, está bem. Eu também tenho de voltar ao trabalho, por isso estás com sorte. Até logo.
- Até logo.
Fui até aos balneários. Tomei um duche, vesti uma roupa lavada e fui para casa. Demorei apenas alguns minutos, mas foram os suficientes para ter lamentado não levar o meu carro, pois estava mesmo muito quente. Naquele mesmo momento decidi que a seguir ao almoço iria à praia. É que realmente é insuportável estar debaixo deste calor escaldante sem fazer nada.
- Kitty! – chamou Samuel, que estava a lavar o carro com a mangueira.
- Olá. Tudo bem? – cumprimentei, simpaticamente.
- Sim, claro que sim. – respondeu ele. – A aula, correu bem?
- Correu. Embora esteja um calor de morte…
- É verdade.
Ele sorriu. Tal como a Mia, ele tem um sorriso muito bonito. E está bastante bem conservado para uma pessoa com 47 anos, porque deve ser daqueles quarentões que tem todas as mulheres atrás dele.
- Acho que vou entrar.
- Claro, não te prendo mais aqui.
Sorri e dirigi-me para casa. Tenho que confessar que a minha mãe fez uma boa escolha. Eu gosto dele, e já o imagino a ser como um pai, os natais em família… A minha mãe merece ser feliz, e acho que o Samuel é perfeito. Só a filhinha dele…
- Olá. – cumprimentou-me Natalie, quando entrei em casa. Ela é a nossa empregada.
- Olá. – respondi, amigavelmente. Virei à esquerda e entrei na sala. Estava lá a Mia.
- Chegou uma carta para ti. – anunciou ela, rudemente. Quase como se estivesse a falar com uma estátua. – Está em cima da mesa.
- Espero que não a tenhas lido.
- Como se a tua correspondência me interessasse.
Deitei-lhe a língua de fora e abri a carta. Assim que vi a letra conhecida, corri para o meu quarto.
- Vê lá se não partes uma jarra! – gozou Mia. Ignorei-a e continuei o meu caminho.
Assim que entrei no meu quarto atirei-me para cima da cama. Abri a carta.
“Querida Kitty,”
- Deves estar a achar. – disse para o ar, revoltada com o que acabava de receber. Estava com tanta raiva que atirei a almofada contra a porta.
- Está tudo bem? – perguntou a minha mãe, entrando. Deixei a carta escorregar propositadamente, para ela não a ver.
- Claro. Estava só a fazer pontaria. – inventei.
Ela não me pareceu muito convencida, mas não voltou a tocar no assunto.
- Queres alguma coisa, mãe?
- Sim, claro. O almoço está pronto.
- Ok, obrigado. Vou já.
- Nem penses que te atrasas! Vá, à minha frente.
- Mãe…
- Kitty…
- Pronto, está bem! – cedi, levantando os braços em sinal de rendição. Ela sorriu e eu beijei-lhe a cara. As duas descemos até à sala de jantar, onde já se encontravam Samuel e Mia. Para infelicidade minha (na verdade, das duas) sentei-me ao lado dela.
- Espero que tenhas lavado as mãos. – provoquei-a.
- Eu sim, e tu?
O que ela disse não tinha mal nenhum, mas a forma como o disse assustava.
- Eu também, obviamente.
- Não me parece assim tão óbvio. – disse ela, apontando para uma mancha de tinta que eu tinha na mão. Bolas!
- Eu lavei, ok? Isto é que não sai!
- Pois, claro… Desculpas!
- Meninas, podem parar com isso? – pediu a minha mãe, extasiada. As duas parámos imediatamente.
Portámo-nos mesmo muito bem durante o resto do almoço, e assim que acabei levantei-me da mesa. Fui ao meu quarto pôr o biquíni e, para acelerar a digestão, fui a pé até à praia. Através da herdade consegue entrar-se na praia, numa zona que nem é muito movimentada e é bastante agradável. Essa zona fica a mais ou menos 1 km de minha casa, mas quase que nem se nota.
Passei a cerca de madeira e senti os pés a tocarem na areia. Que sensação tão fixe! É o que eu mais gosto no verão.
- Por aqui? - perguntou alguém, mesmo atrás de mim. – Uma menina como tu não devia andar por aqui.
Virei-me e vi um rapaz, todo vestido de preto, cheio de correntes e piercings. Cheirava imenso a tabaco e álcool. Aquilo “não me cheirou nada bem”, e comecei a tremer instintivamente. Ele começou a andar em círculos à minha volta.
- Uma menininha rica sozinha numa zona tão deserta como esta? Não é possível!
Ele aproximou-se mais de mim, e recuei um passo.
- Oh não, tu és a filha da dona da herdade! Como é que a mamãzinha te deixa andar sozinha? Não sabe que é perigoso, não? – perguntou ele, “acariciando-me” a face. Comecei a congelar de medo.
- E se fosses dar uma volta, idiota? – perguntou Mia, que vi que tinha aparecido de repente. Estava com um ar super sereno, o que contrastava com a minha ansiedade.
- Olha, temos uma corajosa. – disse o rapaz perversamente, observando Mia.
- É melhor desapareceres. Se não…
- Se não o quê? – provocou ele.
Achei que ela se ia calar, mas em vez disso espetou-lhe um murro na cara. Não percebo muito de murros, mas aquele deve ter sido mesmo bem dado. Até porque ele começou a sangrar do nariz.
- Tens a certeza que queres ouvir o meu se não? – perguntou Mia, com um ar superior.
- Tens garra miúda. Por agora deixo-vos em paz, mas vais voltar a ouvir falar de mim, garanto-te. – disse o rapaz com um ar decidido, enquanto limpava o sangue com a mão. – Nunca ninguém vence o Luc. Ninguém.
Nenhuma de nós disse uma palavra até ele se afastar. Ela olhou para mim, e eu olhei para ela.
- Eu nem sei como te agradecer. – confessei, bastante agradecida pela ajuda dela.
- Então não agradeças. Deve ser a primeira vez que agradeces ter alguém que já enfrentou gente deste tipo. – disse ela, sorrindo. Era um sorriso genuíno, bonito de se ver. Instantaneamente, vi o outro “eu” da Mia.
- Pois, acho que sim. Obrigada, a sério.
- Não precisas de agradecer. Bem, acho que vou dar um mergulho. – disse ela.
- Mas nem sequer tens fato de banho!
- Kitty, tens de aprender a soltar-te.
- Não vais fazer nudismo, pois não? – perguntei, incomodada. Ela começou a rir-se embora.
- Descansa. É exactamente o oposto.
Tirou os chinelos e começou a correr. E mergulhou na água, toda vestida. Ok, ela é maluca. Mas ou menos diverte-se.
êêê
Assim que acabei de vestir o pijama enfiei-me na cama. Peguei no livro que ando a ler, e estava pronta para começar quando me bateram à porta.
- Posso? – perguntou Mia, espreitando.
- Esqueceste-te de alguma coisa? Já foste para o teu quarto…
- Não, não me esqueci de nada. Quero falar contigo. Posso?
- Sim, entra. – disse, ajeitando melhor a minha posição.
Com o fato de treino que tinha vestido e o rabo-de-cavalo ela parecia uma pessoa completamente diferente. Sentou-se em cima da minha cama.
- Sobre o que é que queres falar? – perguntei, curiosa.
- Eu tenho uma dúvida. O que é que aconteceu ao teu pai? – perguntou ela, de repente.
- Ele morreu. – respondi, nervosa.
- De certeza?
- Absoluta.
- Então o que é isto? – perguntou ela, abanando uma carta na mão. Congelei.
- Andaste a mexer nas minhas coisas?
- Não. Quando estava a arrumar as minhas coisas vi isto dentro da minha mala. Deve ter caído. – disse ela. As duas ficámos em silêncio um bocado, mas ela voltou a falar. – Ouve Kitty, podes contar-me, a sério que podes. Acredita que eu te vou compreender. Podemos não ter a melhor relação do mundo, mas podes confiar em mim.
Estive quase a recusar, mas não aguentei. A minha fraqueza tomou conta de mim e comecei a chorar. Ela agarrou-me, sem por um momento hesitar.
- Vá, não chores.
Nos minutos seguintes tentei controlar-me. Quando já estava quase controlada, comecei a contar-lhe.
- Quando eu tinha 10 anos os meus pais começaram a discutir imenso. Eu tentava ignorar, indo para outro sítio da casa. Depois começaram a discutir todos os dias. O balão acabou por rebentar, e quando eu tinha 11 anos ele saiu de casa. Nos primeiros meses tinha esperança que ele voltasse, mas isso não aconteceu. Aprendi a viver só com a minha mãe, e ela fez tudo por mim. Foi a melhor mãe do mundo, e foi muito difícil educar-me. Passei a concentrar a minha raiva em vontade de a fazer ter a filha que ela merecia. O meu progenitor – disse esta palavra com amargura, com raiva. – não deu sinal de vida durante 6 anos. 6 anos! Achas normal? Eu não. Mas o senhor teve a gentileza de me ligar o ano passado nos meus anos, para me dar a notícia de que se tinha casado outra vez! Desde aí manda-me cartas quando calha. E sempre que calha, elas vão directamente para o caixote do lixo.
- Porquê cartas?
- Porque eu rejeito os mails e os telefonemas.
- Ouve, eu… Lamento imenso. A sério.
- Já que estamos numa de contar coisas tristes… - disse eu, limpando as lágrimas com a palma da mão. – Não queres contar-me a história da tua mãe?
Achei que ela ia recusar. Em vez disso, sentou-se ao meu lado e pôs os braços à volta dos joelhos.
- A minha mãe morreu quando eu tinha oito anos. Foi num acidente de carro. Juro que houve alturas em que cheguei a pensar que foi de propósito.
Não queria interrompê-la, mas não me contive.
- De propósito?
- Ela tinha uma doença em fase terminal. – contou ela, com as lágrimas nos olhos. – Não a censurava se quisesse acabar com a dor dela. Todos os dias tinha montes de dores, e mal se podia mexer. Quase nunca saía de casa, e as coisas foram mesmo complicadas. Bem, o que interessa é que ela escreveu-me 12 cartas.
- A sério?
- Uma por cada aniversário, até aos meus 20 anos. Todas as cartas dizem algo diferente. No início, mal conseguia esperar pelos meus anos para ver o que ela me tinha escrito, mas agora…
- Agora não consegues? – adivinhei.
- É isso mesmo. Ainda não consegui abrir a dos meus 18 anos. – confessou ela, limpando o olho com o dedo.
- Estás a chorar? – perguntei.
- É claro que não. – mentiu ela.
- Mia, estamos no mesmo poço. Não tens de esconder.
Ela olhou para mim. Os olhos, habitualmente castanho-azulados estavam agora muito azuis.
- Uau, os teus olhos estão lindos.
- Ficam assim quando choro.
- Então devias chorar mais vezes.
O que eu disse aliviou o ambiente, e começámos as duas a rir-nos.
- Ok, isto vai parecer estranho, mas… Eu não estou assim tão ansiosa por estrear o meu quarto novo. Achas que hoje posso ficar aqui?
- Claro. Tréguas por uma noite? – adivinhei.
- Tréguas por uma noite. – concordou ela.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Ano Novo
Último dia do ano!!!! ahah, espectáculo, não é?? Parece que este vai ser o meu último post do ano...
UM FELIZ ANO NOVO A TODOS!!!
UM FELIZ ANO NOVO A TODOS!!!
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Feliz Natal
Quero desejar um feliz Natal a todos os meus seguidores. Podem não ser muitos, mas são os melhores!!!!
Espero que tenham aquilo que mais querem e, claro... leiam muito!!!
Beijinhos
Beatriz
Espero que tenham aquilo que mais querem e, claro... leiam muito!!!
Beijinhos
Beatriz
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Confessions of two girls - Capítulo 3 (especial p a Dani!!!)
Capítulo 3
Mia Stevens
Não falei a viagem toda. Ouvi música, li um livro, dormi… Mas não falei com o meu pai. Aliás, nas últimas duas semanas só falava com ele o essencial dos essenciais. Ainda nem acreditava no que ele me tinha feito. Ainda não acreditava que já não vivia em Los Angeles. Ainda não acreditava que ia viver para San Diego. Ele não tinha o direito e ponto final.
Estava com a cabeça encostada ao vidro, a olhar para o mar. Ao menos ia estar perto do mar, menos mal. No verão o calor é insuportável, e é bom poder ter uma praia para ir refrescar as ideias. Uma coisa que já tinha prometido a mim mesma, é que ia ficar a conhecer aquele sítio muito bem, para poder desaparecer o dia inteiro.
- Estamos quase a chegar, minha querida. – avisou o meu pai. Ignorei-o pela quinquagésima vez (sem exageros) naquele dia. – Mia, vá lá.
Ajeitei a minha posição na cadeira, continuando a ignorá-lo.
- É assim que vai ser? Muito bem. Se te interessar, a tua nova casa fica ali. – disse ele, apontando para um enorme portão. Este estava aberto, e à porta estava o que eu supus ser o porteiro. Avistavam-se enormes campos, a maior parte deles com cercas. Uns tinham cavalos a pastar, outros estavam simplesmente vazios, outros tinham flores lindas. Nos caminhos havia um grande alarido: carrinhas a passar, carros estacionados no parque de estacionamento, um tractor cheio de pessoas que tiravam fotografias, uma ou outra pessoa a cavalo… Tudo ocupado. Era sem sombra de dúvidas um daqueles ambientes “fixes”.
- Não me digas que vamos viver no meio do campo. – disse, ironicamente. Não podia desmanchar a minha postura, mas a verdade é que não me importava nada de dormir ao relento, desde que fosse ali.
- Claro que não.
O meu pai guiou por uma data de estradas, de onde se avistavam campos com porcos, vacas, galinhas, e esse tipo de coisas. Vi os estábulos, e uma espécie de edifício ao lado que calculei ser o sítio dos escritórios da herdade. Virámos para uma rua onde apenas passava uma carrinha, o que logo à partida já era estranho. Quando olhei para a frente, nem queria acreditar no que via. Àquilo não se podia chamar casa. Nem casarão. Aquilo era uma mansão!
- O que é isto? – perguntei, espantada.
- A tua nova casa. – esclareceu o meu pai, com um sorriso perante o meu espanto.
- Podias ter-me prevenido.
- Achei que era óbvio. Além disso não falavas comigo, lembras-te?
- Mas ouvia-te na mesma. – respondi, não querendo “ficar mal”.
A casa também estava rodeada por uma espécie de grades e por um portão (que estava aberto). Carros, que eu calculei serem dos funcionários, estavam estacionados cá fora. Lá dentro, ao lado do sítio onde o meu pai estacionou o carro, estavam outros dois carros, que eu calculei pertencerem a Leona e a Kitty. O Mercedes de Leona, prateado, fazia contraste com o carro preto do meu pai. Ao lado do Mercedes, estava um Freelander 2 vermelho, mesmo giro. Calculei que fosse da Kitty, logo a começar pela cor.
- Então, gostas?
- Tenho de confessar, isto é espectacular. No entanto, não vale a pena criares expectativas. Duvido que aqui me chegue algum dia a sentir em casa. Aposto que nem lá perto.
- Vá lá Mia. Tens a praia mesmo aqui ao lado, e isto é óptimo. Tu adoras passear, nada melhor do que isto.
- Eu gostava de passear quando tinha 10 anos.
- Porquê, já não gostas?
Não respondi, não querendo dar-lhe razão. Ele ia repetir a pergunta, ou algo do género, quando a Leona me salvou.
- Olá! Então, que tal a viagem? – perguntou, simpaticamente.
- É mesmo preciso responder? – perguntei. Acho que a magoei, mas ela deixou passar. Nem sequer olhou para as minhas roupas com repulsa, o que raramente acontece.
- Foi boa, querida. – respondeu o meu pai, beijando-a.
- Se não se importarem, eu vou dar uma volta.
Como se o facto de eles se importarem mudasse alguma coisa.
- Não te queres instalar primeiro? – perguntou o pai.
- Deixa-a ir conhecer o sítio. O que não falta à Mia é tempo para se instalar.
- Infelizmente… - comentei, baixando o tom de voz. Dei meia volta e comecei a afastar-me. Saí dos portões, sem fazer a mínima ideia do sítio para onde estava a ir. Andei mais ou menos 1 km (se calhar estou a exagerar). À minha volta só via campos e mais campos. Uns tinham flores, e estavam mesmo bonitos, outros estavam apenas vazios. O sol já se estava quase a pôr, e andar por ali acabava por ser relaxante. O meu pai tinha razão: eu adorava fazer aquilo. Andei mais um bocado, até que me pareceu ouvir água a correr. Virei à direita, e definitivamente não estava à espera de encontrar o que encontrei: à minha frente estava um lago enorme, daqueles em que se podem passar boas tardes de Verão. Os últimos raios de Sol faziam reflexo na água, e a vista estava mesmo bonita. Dei uma olhadela pelo sítio e vi uma coisa em que não reparara antes: um carro estava estacionado ao pé de uma casa minúscula, que devia servir para guardar alguma coisa. Dentro de essa casa saiu um rapaz, cabelo loiro e olhos castanhos, um bocado mais alto que eu. Pareceu espantado ao ver-me ali.
- Olá. – cumprimentou. – Posso ajudar-te? Estás perdida?
- Não, na verdade estava a conhecer a minha nova residência.
Ele aproximou-se de mim, e pôs-se a observar-me.
- Então és a Mia?
- Yup. – confirmei. – E tu és…?
- Eu sou o Justin. Sou namorado da Kitty.
- Namorado da Kitty? Coitado…
- Porquê?
- Eu não aguentava ter de a aturar.
- Mas eu gosto dela.
- Então tens mau gosto.
- Sabes mesmo como fazer as pessoas não gostarem de ti, não sabes?
- É, tenho um dom.
- Bom, parabéns.
Criou-se um silêncio constrangedor. Dei meia volta e segui por onde tinha vindo. Quando cheguei à ramificação, fiquei confusa sobre o caminho. Boa, estava perdida!
- Mia, espera. Queres boleia? – ofereceu-se Justin.
- Mia, espera. Queres boleia? – ofereceu-se Justin.
- Não sei se quero boleia de…
- Ei, vá lá. Já é quase noite, e pelo que eu percebo não sabes o caminho de volta.
- Pois não, não sei. Mas não preciso que me ajudes, sim?
Estive tentada a dizer “obrigado”, mas a minha “rebeldia” não deixou. Continuei em frente e optei por um caminho ao calhas. Felizmente depois de uns metros a andar reconheci o lugar. Continuei. Passaram-se mais uns minutos, até que ouvi um motor a trabalhar atrás de mim. Era o Justin.
- Podes deixar-me em paz? – pedi.
- Tens a certeza que não queres ajuda? É que a casa é para o outro lado.
Bolas!
- Ok. – cedi, vendo que estava mesmo perdida. Dei a volta ao carro e entrei para o lugar do pendura. – Mas nem penses que vou falar contigo.
- Não esperava outra coisa.
Ele pôs música. Não era o meu estilo (de agora), mas em tempos tinha adorado aquela banda. Senti a minha própria personalidade a envolver-me. Eu não sou rebelde nem nunca fui, sempre soube isso. Não sei porquê, mas acho que foi uma forma que eu arranjei de chamar à atenção, uma forma de revolta. No entanto, não penso desistir desta fase muito facilmente. Em Los Angeles, sempre foi difícil manter as aparências, porque ao contrário de toda a gente com quem eu me dava, nunca me quis meter em drogas, nem em bebidas, nem em tabaco. Cada vez que me olhava ao espelho, tinha vontade de tirar a porcaria das roupas que uso e deitá-las para o caixote do lixo, ir ao meu armário e abrir as caixas onde tenho a minha roupa antiga. Porque, apesar de tudo, eu sei quem eu sou, mas também sei que não posso voltar a ser essa pessoa. Não depois do que me fizeram. Não depois de a minha mãe ter morrido. Não depois de o Trace me ter traído. Só de pensar nisto ainda sentia um buraco na barriga.
- Chegámos. – anunciou Justin, estacionando o carro.
- Vais sair aqui?
- Hoje convidaram-me para jantar cá.
- Que azar.
- Achas?
- Yup.
- É pena.
Saí do carro, e quase que bati com a porta, mas consegui conter-me a tempo.
- Posso fazer-te uma pergunta? – pedi.
- Claro. O que é?
- Porque é que gostas tanto delas?
- Dou-te um mês para descobrires. Acredita, vais gostar.
Soltei um sorriso para mim mesma e avancei, rumo ao inferno.
êêê
Devo confessar que o interior da casa me surpreendeu. Tanto que, mesmo enquanto todos se despediam de Justin, eu continuava espantada a olhar. Era exactamente o oposto do que eu imaginara. À partida, mansão sugere um ambiente frio, isolado. Mas aquilo era… Espectacular. Era um ambiente super acolhedor e animado, que fazia qualquer pessoa (até mesmo eu) sentir-se em casa.
- Mia, esta noite vais dormir no quarto da Kitty. – anunciou Leona, de repente.
- O quê? – perguntei, esquecendo o que estava a fazer.
- Sim, o quê? – repetiu Kitty, também surpreendida com a notícia.
- O teu quarto está em remodelação. – esclareceu Leona.
- Não acredito que numa casa tão grande não tenham um quarto que não esteja em remodelações!
- Por acaso não. Fizemos obras recentemente, e os quartos só devem acabar para a semana.
- Escusava de se ter incomodado. Sabe, eu gostava de personalizar o meu quarto.
- Ah, mas vais, descansa. Agora se não se importam, eu estou estafada. Kitty, mostra o quarto à Mia.
Leona e o pai afastaram-se.
- Não acredito… - desabafei.
- Não estás mais contente que eu, acredita.
Kitty subiu as escadas, e contrariada segui-a. Passámos por um enorme corredor e a seguir entrámos numa espécie de hall, como aqueles dos hotéis. Havia duas portas, uma de cada lado.
- Este vai ser o teu quarto. – disse Kitty, apontando para a porta do lado esquerdo. – Este é o meu.
Perfeito, uma em frente à outra! O que é que podia ser melhor?
Ela abriu a porta do quarto dela, e mais uma vez segui-a. Como a decoração da casa, a do quarto dela também me impressionou. Estava à espera de uma coisa completamente diferente: mais pirosa, feminina, menos humilde… Tinha uma parede cor-de-rosa, mas ficava estranhamente bem.
- A minha cama tem gaveta, e é onde vais ficar.
- Uau.
- Já te disse que isto me agrada tanto como a ti.
- E eu ouvi á primeira. Não sou surda.
- A sério? Achei que esse piercing te tirava capacidade auditiva.
Ok, a miúda conseguiu irritar-me. O que é que ela tem contra a mini bola de metal que está presa no cimo da minha orelha direita?
- Porquê, esses saltos tiram-te a capacidade de andar?
Ela não respondeu, obviamente provocada.
- Então porque é que eu devia deixar de ouvir por causa do piercing? Tu tens é inveja.
- Pois, claro. Como é que adivinhaste? – perguntou Kitty, ironicamente. – Se eu quisesse uma coisa horrorosa dessas, já a tinha há muito tempo, podes crer.
- Estás a ver? Esse é o vosso problema! Têm tudo o que querem, quando querem. Não têm nem um pingo de humildade.
- Tu não sabes do que estás a falar, por isso é melhor estares calada.
- Porquê, o que eu estou a dizer é mentira? Até parece.
Vi a minha mala e fui lá tirar o meu pijama e a escova de dentes. Entrei na casa de banho e só saí para me ir deitar. Definitivamente, aquela miúda ia estar sempre na minha lista negra.
êêê
Acordei com o sol a bater-me na cara. A Kitty já não estava na cama, por isso devia ter feito aquilo de propósito para ver se me acordava. Olhei para o despertador cor-de-rosa dela. Nove da manhã! A miúda é louca.
Vendo que não conseguia voltar a adormecer, levantei-me e fui tomar um duche rápido. Depois de vestir um fato de treino, peguei no meu ipod e desci as escadas. Ia a sair pela porta quando ouvi a voz do meu pai.
- Bom-dia querida. – desejou ele.
- Olá.
- Não vais tomar o pequeno-almoço?
- Não tenho fome.
- De certeza?
- Absoluta.
Ia a sair pela porta quando me lembrei de uma coisa.
- O que é que aconteceu à Kitty?
- A interessares-te pela tua irmã?
- Ela não é minha irmã! – relembrei-o. – Só quero saber porque raio é que quando acordei com o sol na janela ela não estava lá.
- Ela trabalha na herdade. Dá aulas de como montar. Hoje teve uma cedo.
- Obrigado pelo esclarecimento. – agradeci rudemente, saindo mesmo pela porta.
Pus os phones e comecei a correr. O ambiente do campo fez-me recordar de algumas coisas, e esta foi uma delas. Já não fazia aquilo há imenso tempo, mas soube mesmo bem.
Ainda corri uns minutos, mas depois comecei a andar. Não por estar cansada, porque não estava. Mas a paisagem era demasiado bonita para passar sem admirar. Quando tinha mais ou menos 14 anos, a fotografia tinha sido uma das minhas grandes paixões, e dei por mim a sentir os “instintos fotográficos” outra vez. Estava tão concentrada na paisagem que apanhei um susto enorme quando ouvi um relinchar mesmo ao meu ouvido.
- Ah! – gritei, pulando. Atrás de mim, do outro lado da cerca, estava um cavalo preto lindo, com a pele super brilhante. – Uau.
Virei-me totalmente de frente para o cavalo. Observei-o, para ver se ele estava com medo de mim. Cheguei à conclusão que não estava, e atrevi-me a afagar-lhe o focinho.
- És tão fofo. – constatei. Ele aproximou mais o focinho. Arranquei um monte de erva do chão e dei-lhe. Enquanto fazia isto, ouvi o motor de um carro a aproximar-se. Virei-me e uns segundos depois um jipe branco, sem “tecto” e com um enorme logótipo da herdade gravado no capô, apareceu. Lá dentro estava a Leona, obviamente. Estacionou mesmo ao meu lado.
- Olá. – cumprimentou-me.
- Olá. – retribuí.
- Estás perdida?
- É claro que não. – disse convictamente. Olhei à volta e caí em mim. – Ok, estou.
- Pois, bem me pareceu. Vá, anda. Eu dou-te boleia.
- Duas boleias em dois dias? Não obrigada. – recusei.
- É pena, porque eu tenho uma coisa para te mostrar.
- Ai sim? O quê? – perguntei, curiosa.
- Se não vieres não vais saber.
- Pronto, está bem.
Entrei no carro. O banco era bastante mais confortável do que parecia (tenho de aprender a deixar de julgar as coisas aqui) e até sabia bem estar ali a apanhar com o sol na cara. Dali, a vista era muito mais panorâmica e vi imensos cavalos a pastar.
- Uau. – comentei.
- É fixe, não é? – perguntou Leona, tentando imitar um jovem.
- Má tentativa. – constatei.
- Foi, não foi? – perguntou ela, sorrindo. Pela primeira vez desde que tinha ali chegado ri-me com vontade, e soube mesmo muito bem.
Demorámos apenas uns minutos até se avistarem os portões da casa.
- Já sei que já tiraste a carta. – informou Leona.
- É verdade. – confirmei – Há um ano.
- Mas não tens carro…
- Quando precisava andava com o do meu pai. Ele não gostava das minhas companhias e achou que eu não merecia, e acho que aqui ele não vê um problema desse género. Também nunca precisei… Mas porquê esta conversa toda?
- Digamos que cá vais precisar de certeza. Isto é enorme, custa a andar a pé.
- E o que é que isso adianta? Não tenho carro na mesma.
- Agora tens.
Ela estacionou o carro ao lado de um Toyota Hilux preto lindo. Sempre gostei daquele género de carros. Percebi rapidamente.
- Está a gozar, certo?
- Não. Esse é o teu carro.
- O quê?
Nem queria acreditar. Ela tinha-me oferecido um carro! Saltei do jipe e fui observá-lo mais de perto. O carro era mesmo um máximo.
- Está a tentar comprar-me? – perguntei. Ela ia desculpar-se, mas cortei-lhe a palavra. – É porque está a resultar. – disse, na brincadeira. Ela riu-se.
- Temos um acordo com algumas marcas, eles fornecem-nos carros. Ofereceram-nos um desconto especial. Espero que gostes do carro, o teu pai disse que ias adorar.
- E adorei, pode crer. Mas não precisava de fazer isto. Nem sequer tenho como lhe pagar.
- Eu posso dar-te cá um emprego, mas o dinheiro é para ti. Mia, quer queiras quer não, agora somos família.
Nem sequer me dei ao trabalho de discordar. Eu estava a começar a gostar dela. Abracei-a.
- Obrigada, mesmo. – agradeci.
- Não precisas de agradecer.
- E quanto a esse trabalho? Como é que é?
- Nós precisamos de um tratador. Se perceberes alguma coisa de cavalos…
- Quando era pequena andei na equitação. Percebo deles e gosto deles. – confessei.
- Ainda bem. E fica descansada, que podes aproveitar as férias. É só um part-time.
- Boa.
- Claro que há dias que deves ficar mais tempo que outros…
- Não há problema. Eu tenho 18 anos, acho que é altura de ser responsável. E de me deixar de estupidezes.
- O que é que queres dizer com isso?
- É uma mudança a longo prazo. Com o tempo descobrirá.
- Fico à espera. Sabes montar?
- Sim.
- Óptimo, porque qualquer dia ainda és promovida e ficas a dar aulas.
- A sério? – perguntei, entusiasmada.
- A sério. – confirmou Leona, obviamente contente pelo meu entusiasmo. – No teu GPS tens o mapa da herdade. Assim já não te perdes. – disse ela, piscando-me o olho. – Agora vai experimentar o teu carro, não te roubo mais tempo.
- Obrigada. E quanto ao emprego?
- Não te preocupes, discutimos isso logo à noite.
- Nem sabe o quanto lhe agradeço.
- Nem sabes o quanto o teu nível de rebeldia desceu.
- Acho que os ares do campo me estão a mudar.
- E a Kitty?
- Não sei. E não pode ser tudo ao mesmo tempo, não é? Eu sei que ela é sua filha, mas não a consigo… suportar. Nem ela a mim.
- Não vale a pena falar com vocês. Vá, vai lá. – encorajou Leona.
Abri a porta do condutor e sentei-me. O carro por dentro era tão fixe! Rodei a chave e ouvi o motor. Meti a mudança e carreguei no acelerador. O meu carro era espectacular.
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