Capítulo 1
Mia Stevens
O dia estava a ser uma seca. Ultimamente, todos eram passados da mesma forma, e nada mudava. Nada mesmo. O ciclo de vida habitual repetia-se vezes sem conta: acordar cedo, ir para a escola, voltar a casa, fazer o jantar, estudar, cama. Resultado: seca. Mas ultimamente andava ainda mais seca que o habitual. Seca, seca, seca: não há mesmo outra palavra que descreva isto melhor.
- Oh bolas! – reclamei, quando deixei cair a colher dentro do tacho. Sim, estava na fase de fazer o jantar.
Voltando ao anterior… Ultimamente andava ainda mais seca que o habitual por uma razão que não conseguia identificar: seria por estarmos quase nas férias de Verão? Na escola já se sentia a contagem decrescente… Seria por ter de estudar para os exames? Sinceramente, uma hipótese pouco provável. Nunca estudei muito, e sempre tirei grandes notas. Seria então por o meu pai andar cada vez mais distante? Possivelmente. Há duas semanas que tentava descobrir o motivo da sua ausência. Era mesmo física, nada emocional. Eu sempre tive um lado de rebeldia (que é o que está em acção, a propósito) e ele sempre teve alguns problemas em se relacionar comigo, põe-me de castigo montes de vezes (apesar de já ter 18 anos), dá-me uma data de sermões… Porque é que agora cada vez que fala comigo começa a frase por “minha querida” ou nunca abre a boca para me dar uma “descasca”? E porque é que chega cada vez mais tarde a casa? A sério que não percebo. E, honestamente, acho que isso anda a aumentar a minha rebeldia.
- Querida, boa tarde. – disse ele, quando entrou em casa. Eu não disse?
- Olá pai. – respondi, consultando o relógio. 20h30…
- Como foi o dia?
- Foi bom. E o teu?
- Também. – respondeu ele, com um sorriso. Porque é que ele agora anda sempre com um sorriso na cara?
- O jantar está quase pronto.
- Boa, ainda bem. Vou só tomar um duche rápido.
- Vai, vai…
Enquanto Samuel Stevens tomava banho, acabei de pôr a mesa, acabei o jantar e sentei-me a ver televisão. Pouco depois, o meu pai apareceu, muito aperaltado para um jantar em casa.
- Vais a alguma festa? – perguntei, com censura.
- Não, não vou. E tu querida, vais a algum concerto de metal? – provocou ele, olhando com desdém para as minhas botas pretas, as minhas calças pretas justas rasgadas e a minha t-shirt branca lisa.
- Não, não vou. Caso não tenhas reparado, visto-me assim no dia-a-dia. Mas claro, agora andas demasiado ausente para notares…
- Demasiado ausente? – perguntou ele, fazendo-se desentendido.
- Sim, ausente. Não reparaste, foi?
- Mia, eu não ando ausente.
- Andas sim. Já não me chateias quando quero sair a meio da semana, ou não me pões de castigo quando te ignoro. Começas todas as tuas frases por “querida”… O que é que se passa? – perguntei, exigindo uma resposta.
- O que é que se passa? Queres saber o que se passa? – perguntou ele, exaltado. Desde que a minha mãe morreu somos só eu e ele, e as coisas nem sempre são fáceis… Mas apesar de tudo eu adoro-o, e só nos temos um ao outro. Por isso sabia que ia sair dali uma revelação.
- Sim, quero. Já não sou uma criança, não é?
- Não, não és. Por isso é bom que não reajas como tal.
- O que é que se passa? – perguntei, curiosa. Ele sentou-se ao meu lado e pegou-me na mão.
- Eu ando a chegar mais tarde porque…
- Porque andas cheio de trabalho? Esquece essa desculpa.
- Não, não é isso. Eu ando a chegar tarde porque tenho uma namorada.
Para esta não estava definitivamente preparada.
- Há quanto tempo? – perguntei, friamente.
- Há uns meses…
- Quanto tempo? – repeti.
- 1 ano.
- 1 ano? E não me disseste nada? – perguntei, furiosa.
- Tinha medo da tua reacção.
- Ai sim? Porquê? Eu sei que tu tens direito a continuar com a tua vida amorosa, ok? Não tens é o direito de me esconder isso! Eu sou tua filha, bolas!
- Eu sei. Desculpa.
- Porquê agora?
- Porque… Porque eu marquei um jantar amanhã, para tu e ela se conhecerem. E ela tem uma filha da tua idade, vais adorá-la. Vais finalmente ter uma irmã!
- Desculpa? Achas que me podes impingir uma irmã assim? Nunca devias ter marcado esse jantar! Eu não quero ir!
- Mas vais Mia, não há discussão.
- Eu não quero ir!
- Vais e ponto final. E por favor, vê se te vestes decentemente.
- Porquê? Ela tem de gostar de ti, não é de mim!
- Mia, comporta-te!
- Eu comporto-me! Tu é que não tens o mínimo respeito por mim, se não tinhas-me dito! – disse, preparando-me para ir embora. Estava a meio caminho de entrar no meu quarto quando me virei, para fazer uma pergunta. – Eu conheço-a?
- Provavelmente.
- Quem é?
- É a Leona Smith, uma das principais investidoras no meu atelier.
- Leona Smith? Ela é super rica! Ela tem uma das maiores herdades dos Estados Unidos!
- Eu sei.
- Mas… Ela vive em San Diego! – constatei.
- Eu sei.
- Então como é que vocês namoram? – perguntei. De repente, tudo ficou claro. – Tu abandonaste-me para te encontrares com ela, não foi? Aquelas viagens de negócios eram tretas!
- Mia…
- Como é que tu foste capaz? És a única pessoa que eu tenho no mundo e fazes-me isto? Como?
- Mia, ouve…
- Oiço o quê? As tuas mentiras? Não obrigada. Se calhar nem tens mesmo um atelier, são só tretas que inventaste!
- Não digas disparates! Sabes muito bem que tenho, vais lá montes de vezes!
- Ai vou? Se calhar não.
Virei costas e entrei no meu quarto, batendo com a porta. Como é que ele foi capaz? Eu pensava que ele andava a visitar exposições de pinturas em San Diego, e era tudo mentira! O meu pai é um artista, um verdadeiro artista, nunca me admirei que ele quisesse visitar as exposições. Como é que eu fui tão estúpida?
- Traidor! – disse, agarrando-me à almofada que estava na minha cama. Fiquei ali o resto da noite, a observar fotos antigas. A minha mãe tinha morrido quando eu tinha oito anos, tinha sido num acidente de carro. Sempre pensara que o meu pai deveria ter alguém ao lado dele, e a minha opinião não tinha mudado. Mas como é que as coisas chegavam a um ponto em que ele me mentia? Eu sei que não sou nem nunca fui a filha perfeita: como toda a gente sabe, sou um bocado rebelde. Mas não mereço que ele me tenha escondido isto, não mereço. Não sou aquela miúda que todos os professores adoram, e só dizem bem aos pais. A minha DT sempre disse que eu devo ter ficado rebelde pela falta da minha mãe, e isso sempre o deixou triste. Mas neste momento, isso não me interessa mesmo. Ele não tinha o direito, e no que dependesse de mim as coisas não iam ficar fáceis.
êêê
- Ainda continuas chateada com o teu pai? – perguntou Lina, uma amiga minha.
- Yup.
- Tens toda a razão para isso. Ele foi um idiota em te ter escondido aquilo. – disse ela, enquanto tirava o isqueiro dos bolsos das calças.
- Vais fumar agora? – perguntei, espantada.
- O que é que te parece? – perguntou ela, ironicamente.
- Tens de ter cuidado, a sério. Já fumaste três cigarros hoje…
- E? Por favor, não te armes em minha mãe. – pediu ela, abrindo a boca enquanto saía fumo, mesmo directo à minha cara. – Não queres um?
- Não, sabes que eu não fumo isso.
- Não sejas cortes Mia.
- Tarde de mais. Além disso, eu viro aqui. Até amanhã.
- Até amanhã. – despediu-se ela, provavelmente desiludida pela minha recusa.
Já era habitual eu responder negativamente aquele tipo de perguntas. Nunca tinha tido um desejo desesperado de chegar a esse ponto, embora algo me diga que o meu pai acha que eu ando envolvida nesse tipo de coisas. Se o faz feliz, ele que pense isso.
Olhei para o relógio. 19h30, perfeito. Tinha feito os possíveis para chegar tarde a casa. Eu disse que não ia facilitar…
- Isto são horas? – perguntou o meu pai. A voz chegava-me do sofá. – Temos um jantar importante.
Ele levantou-se e pude ver que ele se esmerara para aquele jantar. Estava mesmo muito bem vestido.
- São as horas a que deu. Mas não te preocupes, que eu sou rápida.
Virei-lhe costas e fui para o meu quarto. Tomei banho num instante, vesti um vestido preto que tenho guardado para ocasiões “especiais”, vesti uns collants e calcei umas botas. Penteei o cabelo, guardei o telemóvel e mais umas quantas coisas numa mala e fui ter com o meu pai.
- Eu sei que vais contrariada, mas estás muito bonita.
- Obrigada. – agradeci.
Saímos de casa e entrámos no Audi do meu pai, que nos levou a um restaurante daqueles em que a comida não é barata. Nós nunca tivemos problemas de dinheiro, mas espantou-me aquela escolha.
- Ela é assim tão fina que temos de vir a um restaurante caríssimo? – perguntei, enquanto fechava a porta do carro.
- Por favor, comporta-te. – pediu ele, fugindo à minha pergunta.
- Já não sou uma miúda de 5 anos. – constatei, entrando no restaurante.
O restaurante, com uma decoração bastante “formal” encontrava-se cheio de gente. Como não frequentava aquele sítio com regularidade (nenhuma, mesmo), não sabia se era por ser Sexta à noite ou se era por ser sempre assim. Calculei que fosse a segunda hipótese.
- Olha, estão ali. – disse o meu pai, apontando para uma mesa onde se encontrava uma mulher e uma rapariga.
A mulher era um pouco mais baixa que o meu pai, ruiva e de olhos castanhos-claros, e tinha uma excelente forma física, para uma mulher que deve rondar os 45 anos. Usava um vestido daqueles que devem ser feitos por estilistas super famosos, mas que se enquadrava na perfeição com ela. Ao seu lado, estava uma rapariga um bocado mais baixa que eu, cabelo castanho ondulado, quase até meio das costas. Os seus olhos cinzentos tinham um formato muito parecido com os da mãe, e tal como esta usava um vestido que dava medo de tocar, com medo de estragar. A miúda gritava a milhas de distância que era uma “betinha”.
- Leona! Kitty! Como estão? – cumprimentou o meu pai, beijando Leona (na boca) e Kitty na face.
- Olá Samuel. – cumprimentou Kitty.
- Kitty, querida, apresento-te a minha filha Mia. – apresentou o meu pai. – Penso que já a conhecias, não é Leona?
- É sim. – confirmou Leona, sorrindo. Soltei um sorriso amarelo.
- Prazer em conhecer-te, Mia. – disse Kitty, simpaticamente.
- Não posso dizer o mesmo… - constatei, baixando a voz.
- O quê? – perguntou Kitty, fingindo que não tinha percebido.
- Foi isso que ouviste, não tenho prazer em te conhecer. Se as circunstâncias fossem outras talvez tivesse, mas nestas… Desculpa, estás com azar.
Formou-se um silêncio constrangedor, em que vi que o meu pai estava com vontade de me esganar. Fiquei secretamente satisfeita.
- Bem, e que tal irmos ao jantar? – perguntou Leona, tentando desanuviar o ambiente.
- Parece-me bem. – concordou o meu pai, aproveitando a oportunidade. Olhou para mim com ar de censura e sentou-se à mesa. Também me sentei e comecei a escolher o que queria. Ele nem sabia no que se estava a meter…
êêê
- O teu comportamento foi inaceitável Mia, inaceitável. – repreendeu-me o meu pai, quando mais tarde chegámos a casa. Revirei os olhos.
- Está feito.
- Pois, mas não devia estar. O teu comportamento foi inaceitável. – repetiu ele, reforçando a ideia.
- Já percebi…
- Não, não percebeste.
- Não me digas que estavas à espera que eu aceitasse isto na boa!
- Sim, estava.
- Grande lata! Podes tirar o cavalinho da chuva.
- Mia, não me faltes ao respeito!
- Tu não podes estar à espera que eu reaja bem quando me lanças uma bomba destas! Tu escondeste-me o teu namoro durante um ano! Um ano!
- Mia, já passámos essa fase.
- Passámos, é claro que passámos. – respondi, ironicamente. – Queres saber que mais? A filhinha dela é um pãozinho sem sal, daquelas miúdas ricas que deve achar que tem o mundo aos pés dela. Acredita que foi difícil estar à mesma mesa que ela.
- Olha que pena! – disse o meu pai, também ironicamente. – Então é melhor começares a habituar-te.
- O que é que queres dizer com isso? – perguntei, confusa.
- Quando acabares os exames vamos mudar-nos para San Diego.
Gostei tanto! *.*
ResponderEliminaroh, obg Dani!!! :)
ResponderEliminarEstá porreiro! Tens jeito miúda ;)
ResponderEliminarOh, obg!!!!
ResponderEliminar