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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Confessions of two girls - Capítulo 2 (Mais um capitulo!!!)

Capítulo 2
Kitty Smith
Ainda me conseguia lembrar do primeiro jantar que tinha tido com Samuel, há um ano atrás. Ele tinha sido muito simpático, eu tinha ficado a adorá-lo. A minha mãe merece alguém à altura dela, e ele estava lá, sem dúvida. Sempre falou bem da filha dele, por isso não estava mesmo à espera do que encontrei. Ela era mesmo bonita, como ele tinha descrito: uns centímetros mais alta que eu, o cabelo castanho ondulado (parecido ao meu) que ia até um bocadinho depois dos ombros, olhos castanho-azulados. Qualquer rapaz devia gostar dela no seu estado normal, porque aquela maquilhagem preta definitivamente não a favorecia. Cheirava-se a km de distância que ela era “rebelde”, e que não estava mesmo nada satisfeita com a situação. Eu que não costumo odiar ninguém, consegui odiá-la logo. Impressionante, sem dúvida. Mas isso nem é o pior: o pior é o facto de ela futuramente ir ser a minha nova companheira de casa.
- Kitty, querida, posso? – perguntou a minha mãe, abrindo a porta do meu quarto.
- Claro. – respondi, deixando por momentos o meu computador.
- Sobre o jantar de ontem… Fica sabendo que a Mia não é assim no seu estado natural. – disse ela, enquanto se sentava na minha cama.
- Ai não?
- Não. Quando a conheci, o ano passado, ela foi mais simpática.
- Sabes, ela não grita simpatia quando a vemos.
- Eu sei que ela não foi agradável, mas tens de perceber que ela não teve tempo de assimilar a notícia.
- Eu percebo mãe, podes ficar descansada. – tranquilizei-a.
Ela olhou para mim com a dúvida no rosto, e eu sorri, numa tentativa de tornar a minha frase mais verdadeira. Pareceu resultar.
- Ainda bem, querida. É bom saber que vais fazer um esforço.
Pois claro. No que depender de mim, aquela miúda nunca se vai sentir em casa.
- Fica descansada. – repeti.
- O Justin está lá em baixo. Acho que te veio buscar para o jogo.
- Sim, diz-lhe sff que eu vou já.
- Está bem.
A minha mãe deixou o meu quarto. Sempre soube que, apesar de termos dinheiro, nunca lhe foi fácil ser mãe solteira. Sempre fez tudo por mim, e eu estou mesmo agradecida. Adoro a nossa herdade, e gosto muito da minha vida. Não a imagino de outra forma: tenho a mãe perfeita, o melhor amigo perfeito, o namorado perfeito…
O Justin! Tinha-me esquecido completamente dele e do jogo. Fui buscar um casaco e desci as escadas. O meu namorado estava lá à minha espera, com o sorriso de sempre na cara. Sorri-lhe também.
- Desculpa a demora. – desculpei-me.
- Não há crise. – respondeu ele, beijando-me.
- Ainda bem. Mas é melhor não demorarmos mais. Sabes, é melhor não nos atrasarmos para o jogo do Tyler, não é?
- Sim, é melhor. – concordou Justin. – Embora eu tenha sempre pena de não os poder ajudar.
- A tua oportunidade passou há dois anos…
Ele riu-se. O Justin tem 20 anos, por isso já anda na faculdade da Califórnia (em San Diego), a estudar medicina. Andou na mesma escola que eu, e foi lá que nos conhecemos.
- Eu sei, eu sei. Hoje é o último jogo, até tu vais querer jogar. – disse ele, confiante.
- Não me parece… Sabes bem que baseball não é o meu género. – constatei.
- Pois não, definitivamente. – concordou ele.
Abriu-me a porta do carro dele, e eu entrei. Sentou-se no lugar do condutor e começou a conduzir. Fomos a ouvir música, e de cada vez que ele abria a boca eu tapava os ouvidos.
- Meu amor, por favor não rebentes os meus tímpanos. – pedi, tentando não o “magoar”.
- Desculpa lá se nem toda a gente canta como tu.
- O que é que queres dizer?
- Kitty, tu tens uma excelente voz, sabes bem.
- Ok, obrigado pelo elogio. E sim, tens razão, nem toda a gente canta como eu. Por isso, por favor, não cantes, porque és um dos infelizes.
- Infelizes… - repetiu ele, como que a desvalorizar a palavra.
Assim que chegámos dirigimo-nos para o estádio de baseball. Apesar de faltar mais ou menos meia hora para o jogo começar, este já estava cheio. Conseguimos arranjar dois lugares (bem localizados) e sentámo-nos.
- Impressionante o que esta gente toda vê no baseball. Pessoalmente, não acho nada de especial. – comentei.
- Kitty, qualquer bom americano gosta de baseball.
- Dizes bem, americano, não americana.
- Até as americanas. – disse o Justin, enquanto se ria.
- Hoje estás cheio de piada! – disse, ironicamente.
Os minutos foram passando, e quando dei por mim o jogo já tinha começado. Tyler é um excelente catcher, e essencial à equipa, por isso é sempre o primeiro a jogar, mas é também o último.
- Yes! – gritou Justin, mesmo ao meu ouvido. Pulei com o susto.
- O que é? – perguntei, sobressaltada.
- O Tyler fez um home run! – disse ele, entusiasmado.
- Ok… - disse, ignorando o facto de não perceber nada daquilo.
- Não sabes o que é um home run, pois não? – perguntou ele.
- Nem por isso…
- Kitty, namoramos há 5 meses. Já vimos milhões de jogos juntos. Nunca aprendeste nada?
- Não.
Ele riu-se, mas continuou a ver o jogo. Eu, como o esperado, não percebi nada de nada. No fim, quando fomos ter com o Tyler, os dois rapazes começaram a falar sobre bases, e coisas do género. Assim, optei simplesmente por ignorá-los. É bem mais fácil.
- Agora o chato é termos de ir estudar para os exames. – disse Tyler, lamentando-se.
- Meu, agora é a festa! Vocês ganharam o campeonato, isso é fantástico. – constatou Justin. – Não é Kitty?
- Sim, sim. – respondi automaticamente, ao ouvir o meu nome.
- Esquece, mais vale mantê-la fora de conversas destas. – informou Tyler. – Conheço-a desde que ela era mini, e nunca percebeu nada relacionado com desporto. Claro, a dança é uma excepção, e das grandes.
- Parem de falar de mim. – pedi.
Os dois riram-se e continuaram com aquelas conversas… Estranhas.
As pessoas da escola estavam todas na festa de vitória da equipa de baseball. Este é o desporto que mais gente gosta, e o que tem mais sucesso entre os alunos.
- Oi Tyler! Grande home run! – felicitou alguém. – Olá Kitty.
- Olá. – cumprimentei, sem saber bem quem.
- De onde é que conheces aquele rapaz? – interrogou Justin.
- Não faço a mínima ideia. – respondi. Ele sorriu, e eu derreti-me toda. – Tens de parar com isso.
- Com o quê?
- Com isso de sorrires de cada vez que olho para ti.
- Ai sim? Porquê? Quando te vejo fico contente.
- Desde quando é que és tão lamechas? – perguntei, na brincadeira.
- Desde que te conheci.
- A sério? Ao inicio ninguém diria.
- Isso é porque eu pensava que eras uma barbie sem neurónios. Obviamente estava totalmente errado.
- Pode ser que a minha nova “irmãzinha” te dê ouvidos. Não que eu sequer me interesse em dar-me bem com ela. É mesmo parva.
- A tua nova “irmãzinha”?
- Yup. O namorado da minha mãe vem viver connosco, e a Mia vem atrás. Mia… Que raio de nome.
- Sem ofensa, mas é tal e qual Kitty.
- Se vires, até faz sentido. – intrometeu-se Tyler. – A Kitty é uma gata, que mia.
- Ah, ah, que piada. – disse, ironicamente. – És mesmo parvo Tyler.
- É por isso que tu gostas tanto de mim? – perguntou ele, de forma convencida.
- Também. – concordei, beijando-lhe a cara.
- O que é que se pode fazer? Eu sou um máximo.
- Convencido.
- Outra qualidade que aprecias em mim.
- Nem por isso.
- Não sejas mentirosa, Kit.
- Não estou a ser, Ty.
- Meninos, parem com isso.
- Desculpa se não chegamos ao nível dos da faculdade, Justin.
- Pois, isso seria um problema. Ou para o ano não estás a pensar ir para a faculdade, Tyler?
- Estou, por acaso estou futuro Sr. Dr.
- Só Dr. Não sou esquisito. – brincou Justin.
- Isso é ser esquisito, porque estás a restringir…
- Parem já com isso! Parecem crianças. Olha Tyler, está ali a Sarah…
- Fogo, aquela miúda é uma chata. Não tinha olhos na cara, eu.
- Vocês só acabaram há uma semana!
- Exactamente. Felizmente já caí em mim.
Uma rapariga loira oxigenada, de saltos altos que se enterravam na lama (como os meus…) aproximava-se de nós. Era Sarah, a ex-namorada de Tyler. Eles tinham namorado 2 meses, e esta ainda não se conformava com o fim do namoro, por isso perseguia, literalmente, Tyler.
- Tyler! Jogaste tão bem! – gritou, ao longe.
- Vou fugir. – preveniu Tyler, antes de desaparecer na multidão. Sarah apareceu logo a seguir.
- Olá Kitty, olá Justin. O Tyler? Ainda agora o vi aqui.
- Deve ser impressão tua. – menti. – Ainda não estivemos com ele desde que o jogo acabou.
- Bem, se o vires diz que eu estou à procura dele.
- Ok. – concordei, obviamente sem intenção de cumprir o acordado.
- Bem, obrigada. Adeus.
- Adeus.
Assim que ela se afastou, olhei para Justin. Os dois partimo-nos a rir. Ele pegou-me na mão e arrastou-me para um sítio quase vazio. Sentámo-nos num banco.
- Não queres explicar aquilo de eu ao início parecer uma “barbie sem neurónios”? – perguntei, repetindo a expressão dele.
- Prometes não levar a mal?
- Prometo. – prometi.
- Digamos que tu tens um óptimo sentido de moda, vestes-te bem e isso tudo, mas à primeira vez pareces uma daquelas miudinhas fúteis, que só pensam em compras, e sonham com centros comerciais, e esse género de coisas.
- Ok, essa foi forte. – disse, dramaticamente.
- Tu prometeste…
- Eu sei, e não levei a mal. Mas achas que devia mudar a minha roupa?
- Não, nada disso. Ouve, é só uma aparência. Importante é o que existe dentro de ti, e nisso ninguém te bate.
- Desde quando é que és tão…
- Tão?
- Tão romântico? Poético? Filosófico?
- Acho que todos os médicos têm essa veia. – disse ele, piscando-me o olho. Sorri e, sem eu estar à espera, ele beijou-me com paixão.
- Amo-te Kitty.
- Óptimo, assim estamos quites, porque eu também te amo.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Confessions of two girls - Capítulo 1

Capítulo 1
 Mia Stevens
O dia estava a ser uma seca. Ultimamente, todos eram passados da mesma forma, e nada mudava. Nada mesmo. O ciclo de vida habitual repetia-se vezes sem conta: acordar cedo, ir para a escola, voltar a casa, fazer o jantar, estudar, cama. Resultado: seca. Mas ultimamente andava ainda mais seca que o habitual. Seca, seca, seca: não há mesmo outra palavra que descreva isto melhor.
- Oh bolas! – reclamei, quando deixei cair a colher dentro do tacho. Sim, estava na fase de fazer o jantar.
Voltando ao anterior… Ultimamente andava ainda mais seca que o habitual por uma razão que não conseguia identificar: seria por estarmos quase nas férias de Verão? Na escola já se sentia a contagem decrescente… Seria por ter de estudar para os exames? Sinceramente, uma hipótese pouco provável. Nunca estudei muito, e sempre tirei grandes notas. Seria então por o meu pai andar cada vez mais distante? Possivelmente. Há duas semanas que tentava descobrir o motivo da sua ausência. Era mesmo física, nada emocional. Eu sempre tive um lado de rebeldia (que é o que está em acção, a propósito) e ele sempre teve alguns problemas em se relacionar comigo, põe-me de castigo montes de vezes (apesar de já ter 18 anos), dá-me uma data de sermões… Porque é que agora cada vez que fala comigo começa a frase por “minha querida” ou nunca abre a boca para me dar uma “descasca”? E porque é que chega cada vez mais tarde a casa? A sério que não percebo. E, honestamente, acho que isso anda a aumentar a minha rebeldia.
- Querida, boa tarde. – disse ele, quando entrou em casa. Eu não disse?
- Olá pai. – respondi, consultando o relógio. 20h30…
- Como foi o dia?
- Foi bom. E o teu?
- Também. – respondeu ele, com um sorriso. Porque é que ele agora anda sempre com um sorriso na cara?
- O jantar está quase pronto.
- Boa, ainda bem. Vou só tomar um duche rápido.
- Vai, vai…
Enquanto Samuel Stevens tomava banho, acabei de pôr a mesa, acabei o jantar e sentei-me a ver televisão. Pouco depois, o meu pai apareceu, muito aperaltado para um jantar em casa.
- Vais a alguma festa? – perguntei, com censura.
- Não, não vou. E tu querida, vais a algum concerto de metal? – provocou ele, olhando com desdém para as minhas botas pretas, as minhas calças pretas justas rasgadas e a minha t-shirt branca lisa.
- Não, não vou. Caso não tenhas reparado, visto-me assim no dia-a-dia. Mas claro, agora andas demasiado ausente para notares…
- Demasiado ausente? – perguntou ele, fazendo-se desentendido.
- Sim, ausente. Não reparaste, foi?
- Mia, eu não ando ausente.
- Andas sim. Já não me chateias quando quero sair a meio da semana, ou não me pões de castigo quando te ignoro. Começas todas as tuas frases por “querida”… O que é que se passa? – perguntei, exigindo uma resposta.
- O que é que se passa? Queres saber o que se passa? – perguntou ele, exaltado. Desde que a minha mãe morreu somos só eu e ele, e as coisas nem sempre são fáceis… Mas apesar de tudo eu adoro-o, e só nos temos um ao outro. Por isso sabia que ia sair dali uma revelação.
- Sim, quero. Já não sou uma criança, não é?
- Não, não és. Por isso é bom que não reajas como tal.
- O que é que se passa? – perguntei, curiosa. Ele sentou-se ao meu lado e pegou-me na mão.
- Eu ando a chegar mais tarde porque…
- Porque andas cheio de trabalho? Esquece essa desculpa.
- Não, não é isso. Eu ando a chegar tarde porque tenho uma namorada.
Para esta não estava definitivamente preparada.
- Há quanto tempo? – perguntei, friamente.
- Há uns meses…
- Quanto tempo? – repeti.
- 1 ano.
- 1 ano? E não me disseste nada? – perguntei, furiosa.
- Tinha medo da tua reacção.
- Ai sim? Porquê? Eu sei que tu tens direito a continuar com a tua vida amorosa, ok? Não tens é o direito de me esconder isso! Eu sou tua filha, bolas!
- Eu sei. Desculpa.
- Porquê agora?
- Porque… Porque eu marquei um jantar amanhã, para tu e ela se conhecerem. E ela tem uma filha da tua idade, vais adorá-la. Vais finalmente ter uma irmã!
- Desculpa? Achas que me podes impingir uma irmã assim? Nunca devias ter marcado esse jantar! Eu não quero ir!
- Mas vais Mia, não há discussão.
- Eu não quero ir!
- Vais e ponto final. E por favor, vê se te vestes decentemente.
- Porquê? Ela tem de gostar de ti, não é de mim!
- Mia, comporta-te!
- Eu comporto-me! Tu é que não tens o mínimo respeito por mim, se não tinhas-me dito! – disse, preparando-me para ir embora. Estava a meio caminho de entrar no meu quarto quando me virei, para fazer uma pergunta. – Eu conheço-a?
- Provavelmente.
- Quem é?
- É a Leona Smith, uma das principais investidoras no meu atelier.
- Leona Smith? Ela é super rica! Ela tem uma das maiores herdades dos Estados Unidos!
- Eu sei.
- Mas… Ela vive em San Diego! – constatei.
- Eu sei.
- Então como é que vocês namoram? – perguntei. De repente, tudo ficou claro. – Tu abandonaste-me para te encontrares com ela, não foi? Aquelas viagens de negócios eram tretas!
- Mia…
- Como é que tu foste capaz? És a única pessoa que eu tenho no mundo e fazes-me isto? Como?
- Mia, ouve…
- Oiço o quê? As tuas mentiras? Não obrigada. Se calhar nem tens mesmo um atelier, são só tretas que inventaste!
- Não digas disparates! Sabes muito bem que tenho, vais lá montes de vezes!
- Ai vou? Se calhar não.
Virei costas e entrei no meu quarto, batendo com a porta. Como é que ele foi capaz? Eu pensava que ele andava a visitar exposições de pinturas em San Diego, e era tudo mentira! O meu pai é um artista, um verdadeiro artista, nunca me admirei que ele quisesse visitar as exposições. Como é que eu fui tão estúpida?
- Traidor! – disse, agarrando-me à almofada que estava na minha cama. Fiquei ali o resto da noite, a observar fotos antigas. A minha mãe tinha morrido quando eu tinha oito anos, tinha sido num acidente de carro. Sempre pensara que o meu pai deveria ter alguém ao lado dele, e a minha opinião não tinha mudado. Mas como é que as coisas chegavam a um ponto em que ele me mentia? Eu sei que não sou nem nunca fui a filha perfeita: como toda a gente sabe, sou um bocado rebelde. Mas não mereço que ele me tenha escondido isto, não mereço. Não sou aquela miúda que todos os professores adoram, e só dizem bem aos pais. A minha DT sempre disse que eu devo ter ficado rebelde pela falta da minha mãe, e  isso sempre o deixou triste. Mas neste momento, isso não me interessa mesmo. Ele não tinha o direito, e no que dependesse de mim as coisas não iam ficar fáceis.
êêê
- Ainda continuas chateada com o teu pai? – perguntou Lina, uma amiga minha.
- Yup.
- Tens toda a razão para isso. Ele foi um idiota em te ter escondido aquilo. – disse ela, enquanto tirava o isqueiro dos bolsos das calças.
- Vais fumar agora? – perguntei, espantada.
- O que é que te parece? – perguntou ela, ironicamente.
- Tens de ter cuidado, a sério. Já fumaste três cigarros hoje…
- E? Por favor, não te armes em minha mãe. – pediu ela, abrindo a boca enquanto saía fumo, mesmo directo à minha cara. – Não queres um?
- Não, sabes que eu não fumo isso.
- Não sejas cortes Mia.
- Tarde de mais. Além disso, eu viro aqui. Até amanhã.
- Até amanhã. – despediu-se ela, provavelmente desiludida pela minha recusa.
Já era habitual eu responder negativamente aquele tipo de perguntas. Nunca tinha tido um desejo desesperado de chegar a esse ponto, embora algo me diga que o meu pai acha que eu ando envolvida nesse tipo de coisas. Se o faz feliz, ele que pense isso.
Olhei para o relógio. 19h30, perfeito. Tinha feito os possíveis para chegar tarde a casa. Eu disse que não ia facilitar…
- Isto são horas? – perguntou o meu pai. A voz chegava-me do sofá. – Temos um jantar importante.
Ele levantou-se e pude ver que ele se esmerara para aquele jantar. Estava mesmo muito bem vestido.
- São as horas a que deu. Mas não te preocupes, que eu sou rápida.
Virei-lhe costas e fui para o meu quarto. Tomei banho num instante, vesti um vestido preto que tenho guardado para ocasiões “especiais”, vesti uns collants e calcei umas botas. Penteei o cabelo, guardei o telemóvel e mais umas quantas coisas numa mala e fui ter com o meu pai.
- Eu sei que vais contrariada, mas estás muito bonita.
- Obrigada. – agradeci.
Saímos de casa e entrámos no Audi do meu pai, que nos levou a um restaurante daqueles em que a comida não é barata. Nós nunca tivemos problemas de dinheiro, mas espantou-me aquela escolha.
- Ela é assim tão fina que temos de vir a um restaurante caríssimo? – perguntei, enquanto fechava a porta do carro.
- Por favor, comporta-te. – pediu ele, fugindo à minha pergunta.
- Já não sou uma miúda de 5 anos. – constatei, entrando no restaurante.
O restaurante, com uma decoração bastante “formal” encontrava-se cheio de gente. Como não frequentava aquele sítio com regularidade (nenhuma, mesmo), não sabia se era por ser Sexta à noite ou se era por ser sempre assim. Calculei que fosse a segunda hipótese.
- Olha, estão ali. – disse o meu pai, apontando para uma mesa onde se encontrava uma mulher e uma rapariga.
A mulher era um pouco mais baixa que o meu pai, ruiva e de olhos castanhos-claros, e tinha uma excelente forma física, para uma mulher que deve rondar os 45 anos. Usava um vestido daqueles que devem ser feitos por estilistas super famosos, mas que se enquadrava na perfeição com ela. Ao seu lado, estava uma rapariga um bocado mais baixa que eu, cabelo castanho ondulado, quase até meio das costas. Os seus olhos cinzentos tinham um formato muito parecido com os da mãe, e tal como esta usava um vestido que dava medo de tocar, com medo de estragar. A miúda gritava a milhas de distância que era uma “betinha”.
- Leona! Kitty! Como estão? – cumprimentou o meu pai, beijando Leona (na boca) e Kitty na face.
- Olá Samuel. – cumprimentou Kitty.
- Kitty, querida, apresento-te a minha filha Mia. – apresentou o meu pai. – Penso que já a conhecias, não é Leona?
- É sim. – confirmou Leona, sorrindo. Soltei um sorriso amarelo.
- Prazer em conhecer-te, Mia. – disse Kitty, simpaticamente.
- Não posso dizer o mesmo… - constatei, baixando a voz.
- O quê? – perguntou Kitty, fingindo que não tinha percebido.
- Foi isso que ouviste, não tenho prazer em te conhecer. Se as circunstâncias fossem outras talvez tivesse, mas nestas… Desculpa, estás com azar.
Formou-se um silêncio constrangedor, em que vi que o meu pai estava com vontade de me esganar. Fiquei secretamente satisfeita.
- Bem, e que tal irmos ao jantar? – perguntou Leona, tentando desanuviar o ambiente.
- Parece-me bem. – concordou o meu pai, aproveitando a oportunidade. Olhou para mim com ar de censura e sentou-se à mesa. Também me sentei e comecei a escolher o que queria. Ele nem sabia no que se estava a meter…
êêê
- O teu comportamento foi inaceitável Mia, inaceitável. – repreendeu-me o meu pai, quando mais tarde chegámos a casa. Revirei os olhos.
- Está feito.
- Pois, mas não devia estar. O teu comportamento foi inaceitável. – repetiu ele, reforçando a ideia.
- Já percebi…
- Não, não percebeste.
- Não me digas que estavas à espera que eu aceitasse isto na boa!
- Sim, estava.
- Grande lata! Podes tirar o cavalinho da chuva.
- Mia, não me faltes ao respeito!
- Tu não podes estar à espera que eu reaja bem quando me lanças uma bomba destas! Tu escondeste-me o teu namoro durante um ano! Um ano!
- Mia, já passámos essa fase.
- Passámos, é claro que passámos. – respondi, ironicamente. – Queres saber que mais? A filhinha dela é um pãozinho sem sal, daquelas miúdas ricas que deve achar que tem o mundo aos pés dela. Acredita que foi difícil estar à mesma mesa que ela.
- Olha que pena! – disse o meu pai, também ironicamente. – Então é melhor começares a habituar-te.
- O que é que queres dizer com isso? – perguntei, confusa.
- Quando acabares os exames vamos mudar-nos para San Diego.